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sexta-feira, 2 de julho de 2010

SEM JUÍZO

Estou mais desimpedido
 Não escrevo mais o que me dava na telha;
 Já estou muito mais envelhecido
 No fulgor de uma centelha...

 Acredito que o meu Papai Noel
 Nunca desceu pelo buraco da minha chaminé,
 Nem veio voando lá do azulado céu
 Com o seu famigerado boné...

 Não acredito mais no amor
 De uma deusa ou fada ou cinderela;
 Mas é sinuoso o meu louvor
 Àquela escabela...

 Talvez eu esteja me amadurecendo
 Na minha transcendente maneira de olhar-me ao mundo,
 Ou quem sabe subitamente renascendo
 Cada vez mais fundo...

 Sou um beijo da amada
 Que ficou deprimido nas nuances da madrugada,
 Forçosamente frágil e esquálido
 Onde estou inválido...

 Estou férvido e insatisfeito
 Nesta tristeza desalmada ardentemente pressentida,
 Como se eu tivesse sido eleito
 A esta dor varrida...

 II

 Se eu não tenho juízo
 É porque desconheço o melodrama da distância,
 Na brutalidade do meu desaviso
 Em última instância...

 Mas o mundo é este
 E me joga de um lado para o outro.
 Ontem, tu me arrefeceste
 Como se eu estivesse noutro...

 Eu quero mudanças!
 Escrever os meus poemas de forma mais amena,
 Sem o ímpeto das minhas loucas crianças
 Numa mentalidade pequena...

 O tempo é primoroso.
 Estou me sentindo menos débil (e mais maduro)
 E já não sou um sujeito lacrimoso
 Como um pânico do obscuro...

 Metamorfose do sofrimento
 Que me transpassou, em definitivo, noutra pessoa:
 Sou o meu novíssimo sentimento
 Num pássaro que voa...

 O meu efêmero poema
 Encontrou o caminho extensivo da pós-modernidade;
 Mas o meu juízo é meu único sistema
 E minha etérea cumplicidade...

(por Fernando Pellisoli)

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